O lado negro da China
Por Rupert Wingfiel-Hayes (Correspondente da BBC em Pequim) 18/03/02
Se
voc' der um pulo no StarBucks perto do meu apartamento em Pequim, voc'
ir' invariavelmente encontr'-lo cheio de jovens chineses bem-vestidos
tomando seus capuccinos.
Do outro lado da rua est'o os famosos arcos dourados do emblema do McDonald's. ' tudo muito confortante.
Hoje, a China possui uma economia de livre-mercado e seus alto-executivos s'o educados em Harvard e em Oxford.
At' mesmo os l'deres comunistas tomam drinks com Bush e Blair e
discursam sobre livre-com'rcio e sobre a guerra contra o terrorismo.
Quando se vive aqui, ' f'cil se iludir no sentido de que a China realmente mudou.
Ent'o algo acontece, e voc' volta ' realidade como que num estalo.
Duas semanas atr's, isso aconteceu comigo.
Enquanto eu caminhava em dire''o ao trabalho, um sedan negro saiu
de uma rua lateral e seguiu vagarosamente alguns metros atr's de mim.
Perto do escrit'rio da BBC havia outro.
Atrav's dos vidros fum', pude distinguir os vultos de quatro homens grandes me observando.
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Protesto na Pra'a da Paz Celestial
'Que diabos est' acontecendo?', pensei.
' medida que o tempo passava, tudo come'ou a ficar claro.
A m'dia reportava que 14 membros estrangeiros do grupo Falun Gong haviam sido presos em um hotel de Pequim.
Ent'o veio um telefonema an'nimo: 'Haver' um protesto na Pra'a da Paz Celestial.' A pessoa disse isso e desligou o telefone.
N's corremos para o carro. Assim que deixamos o escrit'rio n'o um, nem dois, mas tr's sedans negros seguiram atr's de n's.
Na Pra'a, o esquema de seguran'a era o mais forte que eu j' havia visto.
Filas de policiais uniformizados estavam l', junto com literalmente
centenas de policiais vestindo trajes habituais; jovens com ar s'rio
exibindo o mesmo corte de cabelo e equipados com telefones celulares.
Fiquei l' e vi pequenos grupos de manifestantes estrangeiros gritando: 'Falun Gong ' bom. Parem com a repress'o!
Dos quatro cantos da pra'a centenas de policiais come'aram a correr.
Em minutos aquilo estaria acabado. Os manifestantes haviam sido jogados no ch'o e arrastados em dire''o a viaturas.
Eu fui caminhando at' o carro da BBC registrar meu testemunho.
Interrogat'rio Policial
Mas quando eu passei pelo gigantesco museu de hist'ria Stalinista,
no lado leste da pra'a, uma viatura da pol'cia ligou as sirenes ao meu
lado, mandando-me parar.
Sa'ram do carro dois homens e uma mulher. Eles praticamente ordenaram que eu respondesse: 'O que voc' estava fazendo?'
Eu respondi: 'Nada.'
Eles insistiram: 'Voc' tem que vir conosco.'
Eu perguntei: 'Por que?', j' todo arrepiado ' 'eu n'o fiz nada.'
'N'o importa, voc' tem que vir conosco.'
Eu fui levado a uma delegacia de pol'cia pr'xima dali e fui conduzido a uma sala para interrogat'rio.
V'rios jornalistas estrangeiros j' estavam l'. Eu comecei a conversar com um deles.
'Pare de falar!' Gritou um deles.
Respondi: 'O que voc' quer dizer? Voc' n'o pode me impedir de falar.'
Ele continuou gritando: 'Posso te dizer o que eu quiser. Eu sou a pol'cia.'
Eu lhe disse que ele estava sendo tolo, e que aquilo possivelmente n'o era a melhor coisa a se fazer.
Ele veio at' mim, agarrou-me pela garganta e me arremessou contra a parede, vermelho de raiva.
Senti um 'frio na barriga'. Por um momento, pensei que ele fosse realmente me agredir.
'Quem voc' est' chamando de tolo?', ele disse com ar de esc'rnio. Seu rosto estava a cent'metros do meu.
'Voc' realizou uma atividade ilegal.' 'Voc' solicitou permiss'o
para ir ' Pra'a da Paz Celestial?' Por que voc' estava l'?' 'Quem
mandou voc' ir?'
Os questionamentos se estenderam por mais duas horas.
Intimida''o
Eles tentaram fazer-me assinar uma confiss'o admitindo que eu havia desobedecido a Legisla''o Chinesa por ter ido ' pra'a.
Eu recusei. Mais tarde, acabaram me liberando.
Do lado de fora do escrit'rio da BBC, aqueles sedans negros estavam novamente em seus lugares.
Nos dias seguintes eles me seguiam a qualquer lugar: quando eu ia
ao Starbucks tomar caf' e at' quando ia ao parque com meu filho.
Aqueles homens troncudos nunca estavam longe. Eles n'o tentavam agir secretamente ' parecia at' que eles faziam o contr'rio.
A id'ia era me intimidar, para impedir que eu fizesse meu trabalho como jornalista.
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Policia presente at' no Starbucks
Toda a hist'ria foi para mim apenas um pequeno empecilho, e eles j' pararam de me seguir, pelo menos por enquanto.
Mas o incidente p'de nos dizer muito quanto ' natureza do sistema chin's.
Arquivos Secretos
Chineses que ousam criticar ou desafiar o governo enfrentam isso todos os dias.
Uma dissidente proeminente que conhe'o foi vigiada por policiais por dez anos.
Onde quer que ela fosse, o que quer que ela fizesse, l' estavam eles 'na sua cola'.
Mas n'o s'o apenas dissidentes. O sistema de controle vai mais longe.
O Estado chin's mant'm, para cada um de seus cidad'os, um dossi'. Esse dossi' ' chamado Dang An.
Voc' nunca sabe o que est' escrito nele, mas ele pode controlar seu destino.
Qualquer fato considerado marcante ' mal-comportamento na escola,
um desentendimento com seu chefe, uma visita a um psquiatra ' pode te
acompanhar pelo resto de sua vida.
Uma pessoa que conhe'o uma vez conseguiu dar uma 'espiada' em seu Dang An.
Anexado a ele, havia um peda'o de papel rosa que ela reconheceu como sendo da 'poca em que cursara o prim'rio.
As coisas que ela havia feito com oito anos de idade a acompanhavam mais de vinte anos depois.
At' que isso mude, as lanchonetes e os arranha-c'us de Pequim
continuar'o sendo meros disfarces, encobrindo a a''o de um Estado que
acredita na coer''o e no medo para manter o controle.
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